O Mercado Público de Rochester é muito mais que uma feira de sábado, tem muito mais que tomate, alface, banana e maçã. Aquele é o lugar onde nós, os "estrangeiros", nos encontramos e encontramos nossa comida, nossos cacarecos.
Eu adoro andar por lá e sempre volto com a sacola cheia de coisas gostosas, coisas pra matar a saudade de casa. Mas, como todo lugar, tem gente nefasta.
Sábado passado, fazendo compras na barraquinha hispanica, perguntei quanto custavam as bananas da terra, em inglês.
O vendedor respondeu em espanhol, e eu entendi. Mas, antes que ele avançasse na conversa, disse, com meu mais sincero sorriso, que não falava espanhol, ainda que minha aparência me traísse. Pois não é que o cara olhou bem na minha cara, com seu olhar mais fulminate, e disse que eu estava enganada, que nossa aparência física nada tinha em comum, e que nem de longe eu parecia com o povo dele?
Ah, se eu ainda tivesse vinte anos... Naquela época eu não tinha nenhum pudor em devolver os comentários agressivos de quem quer que fosse. Mas agora não, agora eu não vejo vantagem nenhuma em dizer a última palavra. Olhei bem pra ele, peguei minhas bananas da terra, passei pro outro lado da barraca, paguei a outra pessoa e fui embora.
A dor de ser julgada, discriminada por um igual é muito maior do que por um diferente. Do igual eu espero tolerância, conforto, reconhecimento. Eu sei que aquele homem pode ter suas razões pra pensar que eu era uma 'chicana' negando minhas origens, me escondendo atrás do meu inglês com pouco sotaque. Tem muita gente por aí que o faz. Mas há muito mais por trás da pele morena e dos cabelos encaracolados do que podemos imaginar.
Antes de continuar, deixa eu declarar minha culpa, porque eu tenho telhado de vidro. Eu já pensei uma vez que uma africana era brasileira, porque a conheci no meio de brasileiros e ninguém me disse de onde ela era. Tudo isso porque a julguei pela aparência, porque em Salvador muita gente tem a pele negra, muitos negros usam cabelos trançados. Ela não gostou, se sentiu ofendida, e eu pedi desculpas e expliquei porque tinha pensado aquilo. Acho que ela não aceitou minhas desculpas.
Agora, aquele cara da barraca hispanica queria me magoar, o fez intencionalmente. Dá licença de eu seu igual sendo diferente? Eu acredito em globalização com a mesma força que acredito na individualidade de uma pessoa, de uma cultura, de um povo.
Eu sou da sua turma sim, meu amigo, quer voce goste quer nao. Olha a cor da minha pele, a minha bunda grande, o formato do meu nariz, o meu cabelo mestiço. Mas eu não falo a sua língua e você não fala a minha. Eu vou voltar na tua barraca sim porque, como você, eu também gosto de aipim e de banana da terra, de batata doce e de manga. Mas, da próxima vez, falo português. Quero ver até onde avançará nossa comunicação.