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Blog EntryDá licençaJun 6, '05 9:51 AM
for everyone
O Mercado Público de Rochester é muito mais que uma feira de sábado, tem muito mais que tomate, alface, banana e maçã. Aquele é o lugar onde nós, os "estrangeiros", nos encontramos e encontramos nossa comida, nossos cacarecos.
Eu adoro andar por lá e sempre volto com a sacola cheia de coisas gostosas, coisas pra matar a saudade de casa. Mas, como todo lugar, tem gente nefasta.

Sábado passado, fazendo compras na barraquinha hispanica, perguntei quanto custavam as bananas da terra, em inglês.
O vendedor respondeu em espanhol, e eu entendi. Mas, antes que ele avançasse na conversa, disse, com meu mais sincero sorriso, que não falava espanhol, ainda que minha aparência me traísse. Pois não é que o cara olhou bem na minha cara, com seu olhar mais fulminate, e disse que eu estava enganada, que nossa aparência física nada tinha em comum, e que nem de longe eu parecia com o povo dele?

Ah, se eu ainda tivesse vinte anos... Naquela época eu não tinha nenhum pudor em devolver os comentários agressivos de quem quer que fosse. Mas agora não, agora eu não vejo vantagem nenhuma em dizer a última palavra. Olhei bem pra ele, peguei minhas bananas da terra, passei pro outro lado da barraca, paguei a outra pessoa e fui embora.
A dor de ser julgada, discriminada por um igual é muito maior do que por um diferente. Do igual eu espero tolerância, conforto, reconhecimento. Eu sei que aquele homem pode ter suas razões pra pensar que eu era uma 'chicana' negando minhas origens, me escondendo atrás do meu inglês com pouco sotaque. Tem muita gente por aí que o faz. Mas há muito mais por trás da pele morena e dos cabelos encaracolados do que podemos imaginar.

Antes de continuar, deixa eu declarar minha culpa, porque eu tenho telhado de vidro. Eu já pensei uma vez que uma africana era brasileira, porque a conheci no meio de brasileiros e ninguém me disse de onde ela era. Tudo isso porque a julguei pela aparência, porque em Salvador muita gente tem a pele negra, muitos negros usam cabelos trançados. Ela não gostou, se sentiu ofendida, e eu pedi desculpas e expliquei porque tinha pensado aquilo. Acho que ela não aceitou minhas desculpas.

Agora, aquele cara da barraca hispanica queria me magoar, o fez intencionalmente. Dá licença de eu seu igual sendo diferente? Eu acredito em globalização com a mesma força que acredito na individualidade de uma pessoa, de uma cultura, de um povo.

Eu sou da sua turma sim, meu amigo, quer voce goste quer nao. Olha a cor da minha pele, a minha bunda grande, o formato do meu nariz, o meu cabelo mestiço. Mas eu não falo a sua língua e você não fala a minha. Eu vou voltar na tua barraca sim porque, como você, eu também gosto de aipim e de banana da terra, de batata doce e de manga. Mas, da próxima vez, falo português. Quero ver até onde avançará nossa comunicação.


3 Comments
fezoca wrote on Jun 6, '05
quanta bobagem, nao? eu ja levei cara feia de coreano, porque perguntei se era chines. ninguem quer ser confundido e mal interpretado, mas vivemos num mundo tao colorido. eu nao me importo quando as pessoas falam espanhol ou persa comigo, assumindo que sou mexicana ou iraniana. acho interessante que eu possa ter uma aparencia multicultural. e entendo que as pessoas pre-julgam mesmo, ate eu faco. se tivesse outra barraquinha pra voce ir.... apesar que eh isso mesmo, dane-se o cara! o que importa eh a banana e a mandioca! ;-) beijaoooo!
minadeletras wrote on Jun 6, '05
Da um susto quando isso acontece! Nao nos sentimos ofendidas talvez porque crescemos em um lugar em que eramos de uma classe social bem situada, nossas familias nunca sofreram nenhum tipo mais serio de discriminacao. Uma vez, no Brasil, eu era editora da Luluzinha, imagine... E tomei um pito da revisora, que era negra, porque escrevi no "Diario da Lulu" algo assim... "e dai, Diario, a coisa ficou preta...". Mudei a frase pra nao criar problema. Mas achei um absurdo. Depois, me aproximei mais dela, fiquei amiga e acabei entendendo a raiva toda. Deve ser um horror sofrer preconceito todo dia, a vida inteira. Acaba tornando a pessoa agressiva, amarga. Brigar contra esse tipo de colocacao "bobinha" do dia-a-dia eh reacao, eh um jeito de reagir. Deve ser por ai... Quanto a mim, hoje em dia, eh como a Fer.... Me acham russa, polaca , italiana e ate alema. Ninguem me acha brasileira, por contal da gorduchisse, talvez. :-D
wcampelo wrote on Jun 6, '05
Por que não respondeu em bom português? — não precisava nem ser uma resposta malcriada. O cara ia ver logo o engano que cometeu, talvez até pedisse desculpas.

Quando fui à Espanha, eu sempre era confundido com árabe ou marroquino. O povo vinha falando comigo naquelas línguas incompreensíveis e eu, muito educadamente, procurava dizer no meu péssimo inglês, que era brasileiro. Sempre me olhavam com cara feia, devendo achar que eu estava mentindo. O tempo passa e algumas estranhezas permanecem...
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