Pode demorar, mas eu sempre sei que ela vai chegar. Nao tem data marcada, mas obedece a um ciclo que não falha. Nunca sei como vai chegar, pois são muitos os canais. Uma música, um filme, um perfume, encontrar alguém. Hoje ela chegou através de um sonho. Um sonho besta, cheio de coisas que não tinham nada a ver, mas a referência estava lá.
Aí comeca a bola de neve a rolar ladeira abaixo. Ainda é muito cedo pra levantar, mas não consigo dormir mais. Imagens do passado povoam a minha mente. Dirigindo pro trabalho, ouço musicas que me lembram daquele tempo, daqueles fatos, alimento o monstro. Ela vai se fortalecendo, vai tomando conta dos cantinhos da minha mente, vai se apossando do meu dia.
Reconstruo imagens, lembranças, reescrevo diálogos, edito olhares. Mas o melhor de tudo é mesmo lembrar de como, exatamente, as coisas aconteceram, sem mudar nada. Se fechar os olhos posso ouvir as vozes das pessoas envolvidas, posso sentir os cheiros que estavam ao redor, posso sentir o toque, ver o olhar.
Doces dores essas das pessoas acometidas pelo mal da nostalgia. Porque sempre dói um pouco ficar lembrando do passado e remoendo as coisas. Porque nao tem nostalgia só de coisa boa, senão eu escolhia essa.
Meu consolo é que sei que, parte do seu ciclo, ela não fica mais que um dia. Vai-se embora que eu nem vejo. Amanhã posso até procurá-la, mas não vou conseguir resgatá-la da sua jornada. Ela não vem se eu chamar.